Comida, arquitetura e cidade: conexões estruturais para pensar projetos mais sustentáveis
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Mari Bedendo
6/23/20252 min read


A alimentação está diretamente conectada à forma como organizamos os espaços e as cidades. Mais do que uma experiência individual, ela é uma prática coletiva com impactos urbanísticos, ambientais, econômicos e sociais. Para lidar com essa complexidade, é necessário integrar diferentes áreas — entre elas, a gastronomia, a arquitetura, o urbanismo e a sustentabilidade.
Espaços gastronômicos como sistemas operacionais
Dados da ANVISA mostram que cerca de 40% das não conformidades em estabelecimentos alimentícios estão relacionadas ao layout inadequado das áreas de preparo e armazenamento[1]. Isso indica que a arquitetura de cozinhas não é apenas uma questão de design, mas um fator crítico para segurança alimentar, eficiência e viabilidade do negócio.
Além disso, segundo o SEBRAE, 25% dos restaurantes fecham antes de completar dois anos de operação, sendo a má gestão de processos e a estrutura física inadequada algumas das causas mais comuns[2].
Ou seja, projetar uma cozinha é estruturar um sistema técnico e logístico. Isso envolve pensar nos fluxos de pessoas, insumos e resíduos; na ergonomia das atividades; na ventilação e climatização; no aproveitamento de energia e água; e no atendimento às normas sanitárias.
Cadeias alimentares e impacto urbano
A relação entre alimentação e cidade também se revela na escala urbana. O relatório da FAO “The State of Food and Agriculture” de 2023 destaca que as cidades consomem até 70% da produção mundial de alimentos, mas boa parte delas não têm sistemas alimentares locais resilientes[3]. Isso torna as cidades dependentes de cadeias logísticas longas, vulneráveis a crises climáticas e econômicas.
Além disso, a Política Nacional de Resíduos Sólidos aponta que mais de 30% do lixo urbano no Brasil é composto por resíduos orgânicos, em sua maioria restos de alimentos[4]. A forma como os estabelecimentos comerciais e as residências lidam com a comida tem consequências diretas na gestão pública, no uso do solo urbano e na emissão de gases de efeito estufa.
Sustentabilidade como diretriz técnica
Integrar sustentabilidade aos projetos gastronômicos exige ir além da escolha de materiais ecológicos. É necessário adotar critérios técnicos para selecionar equipamentos eficientes, reduzir desperdícios operacionais, utilizar insumos locais e sazonais, e planejar o ciclo de vida dos espaços.
A Agenda 2030 da ONU aponta a alimentação sustentável como uma estratégia essencial para alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), especialmente os ODS 2 (Fome Zero e Agricultura Sustentável), 11 (Cidades e Comunidades Sustentáveis) e 12 (Consumo e Produção Responsáveis)[5].
Uma atuação conectada
É nesse cruzamento que se estrutura o trabalho da Cobogó. Com experiência prática na gastronomia e formação técnica em arquitetura e urbanismo, atuo em projetos que integram operação, espaço e impacto. Cada cozinha, cada cardápio, cada estrutura pensada é parte de um sistema mais amplo que inclui o território, as pessoas e o meio ambiente.
Afinal, comida, espaço e cidade fazem parte da mesma equação. E tratá-los como elementos integrados é um caminho necessário para criar negócios mais sólidos e cidades mais saudáveis.
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Fontes:
[1]: ANVISA – Manual de Boas Práticas para Serviços de Alimentação, 2020
[2]: SEBRAE – Sobrevivência das Empresas no Brasil, 2023
[3]: FAO – The State of Food and Agriculture, 2023
[4]: ABRELPE – Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil, 2022
[5]: ONU – Agenda 2030 e os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável
